Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Ecopista do Dão - as obras ainda continuam...

Aproveitando os dias solarengos do passado fim-de-semana, decidi dar uma volta de bicicleta pela "quase pronta" Ecopista do Dão.

Lançada em finais de 2008 com toda a pompa e circunstância pelas edilidades e presidentes dos concelhos por ela atravessada
, a sua conclusão estava prevista para meados de 2010, mas pelo que pude apurar do andar das obras, não estará para breve o seu término. Só para dar uma ideia: a ponte ferroviária em Tondela ainda está em obras, assim como a pequena ponte em Canas de Santa Maria, uma parte do percurso em Canas está com gravilha ao longo da ecopista, as obras na estação de Sabugosa por concluir, candeeiros ao longo da ecopista por colocar... enfim, ainda há muito trabalho a fazer!



Considerada a maior copista do país com cerca de 52Km, construída sobre o antigo troço da linha férrea que ligava Santa Comba Dão a Viseu, pessoalmente e como é difícil conseguir que o comboio ali voltasse a circular, acho a ideia boa, apesar de a considerar exageradamente cara para os tempos que correm versus as vantagens para a população por ela abrangida, isto apesar das nobres ideias contidas no projecto, as minhas reservas são grandes. Claro está, isto só o futuro o dirá e sinceramente espero estar enganado!

Também não percebi se a ecopista vai ter valetas ou alguma forma de escoar as águas pluviais, principalmente durante o rigor do Inverno. Por exemplo, em Canas de Santa Maria, na zona da igreja românica, as águas já por ali se vão acumulando e estamos no Verão, o que faz prever que no Inverno as águas estarão bem acima do alcatrão!

Não conheço o projecto com detalhe, mas penso que este deveria ter sido colocado à apreciação pública para que fossem dadas ideias e no final fosse feita uma compilação das melhores ou de interesse relevante.

Para além das valetas, outra questão que me preocupa são as zonas íngremes, sobretudo entre Tondela e Tonda, onde é necessário circular com muito cuidado, dado que uma queda em alguns locais pode ser fatal. Tendo em conta que na ecopista irão circular crianças e adultos, esta questão não devia ser descurada pelos responsáveis.


Outra situação estranha é a existência de sinais de proibição "C4c - Trânsito proibido a automóveis, a motociclos e a veículos de tracção animal" ao longo da ecopista, mas as pessoas ignoram-nos e em alguns casos com razão! Por exemplo, entre Tondela e Tonda existem muitos montes e até campos de cultivo, cujo acesso antes da construção da ecopista era feito por ali e sinceramente não consigo deslumbrar alternativas para essas pessoas usarem. Mais um caso onde se calhar faltou um pouco de bom-senso e planeamento. Digo eu!

E já que falamos em segurança, foi com algum espanto que vi que os responsáveis desta obra adoptaram lombas redutoras de velocidade (em paralelos) para "acalmar" a velocidade dos automobilistas menos atentos ao cumprimento do Código da Estrada nos cruzamentos que a ecopista faz com estradas ou caminhos.


O que dizer sobre isto? Bem, uma vez ouvi um senhor dizer que "é preferível um carro partido a uma pessoa atropelada", o que não deixa de ser verdade, mas para tudo na vida (mais uma vez) há que ter bom-senso! Para começar é um exagero colocar lombas em tudo o que é cruzamento, apesar de se perceber a "ideia" de arranjar uma solução suficientemente dissuasora para proteger quem circula na ecopista, esta certamente não é a melhor forma, porque acaba por ser mais prejudicial do que benéfica, ainda por cima usando um "tipo" de lomba que nem sequer está regulamentada e viola grosseiramente algumas elementares regras para a sua colocação, assim como a sua sinalização.
Usa-se o argumento de que as lombas servem para impedir que os automobilistas circulem a velocidades excessivas, mas a verdade é que não se pode combater esta infracção com outra ilegalidade, colocando obstáculos nas estradas, omissos na lei e que colocam em causa a segurança dos seus utilizadores!
E desde já o meu conselho é: "senhores automobilistas que numa travessia destas lombas danifiquem o vosso veículo, chamem as autoridades para tomarem conta da ocorrência e entreguem a factura do conserto na Câmara Municipal pois têm todo o direito de ser ressarcidos pelos danos causados". É inadmissível, ainda por cima numa obra comparticipada financeiramente pelo QREN com cerca de 3 milhões de euros que se cometa este tipo de erros!
Será que a fiscalização ou responsável da obra não conhece a nota técnica da ANSR sobre instalação e sinalização de LRV? No mínimo o que se deveria pedir era que fossem retiradas das ditas lombas e construídas outras em conformidade!

Mesmo a sua colocação sendo ambígua perante a lei, a instalação de lombas obedece a critérios (ver norma técnica da ANSR) e neste caso andaram a inventar "pares de lombas" com uma passadeira no meio, quando o correcto seria a instalação de uma LVR tipo trapezoidal associada a passagem de peões (ver pág. 16 da nota técnica). Era apenas uma lomba, com uma passadeira por cima e com esta solução poupava-se metade dos sobressaltos que se tem de dar com a solução actual que nem sequer existe na dita nota técnica. À boa maneira portuguesa... à que inventar sem necessidade.
Para além disso, antes e depois de cada lomba deve existir uma sequência de quadrados brancos alternados e desencontrados compostos por "quadrados" de 0,50m cada para que o condutor se aperceba do início da lomba, algo que em nenhuma destas lombas existe.

E porque razão se deve evitar a instalação de lombas para redução de velocidade e optar por outros métodos?
2- Aumento do ruído (poluição sonora).
Ao travar, alguns veículos, sobretudo pesados de ligeiros e mercadorias, produzem “chiar” nos travões e um silvo do compressor.


3- Perigo de aquaplaning.
É frequente no local onde se encontram implantadas lombas formarem-se lençóis de água ou haver dificuldade no seu escoamento, isto porque uma lomba é colocada em toda a largura da estrada.
4- Aumento da poluição atmosférica e do consumo de combustível.
Todos sabem que a manutenção de uma velocidade constante é a chave para obter reduzidos consumos e menores emissões de poluentes. Pelo contrário, o para-arranca, leva a um maior consumo e por conseguinte um aumento da poluição.
5- Produção de impactos, vibrações no solo e danos em edifícios.
Trata-se de um dos problemas mais delicados já que contende com a segurança de pessoas e bens.
6- Danos em viaturas.
Em geral a referência a danos resultantes da contínua passagem em lombas reportam-se a:
- Desgaste prematuro dos pneus, suspensão, apoios do motor e travões.
- Perda de calibragem dos pneus e alinhamento da direcção.
- Possíveis danos estruturais em certos veículos pesados tipo auto-tanque.
- Possível disparo de airbags se o embate na lomba for violento.
7- Atrasos e danos em veículos de socorro (ambulâncias, bombeiros) e perigo para acidentados e doentes.
Esta é uma das principais razões para a exclusão da sua aplicação nos itinerários de acesso a hospitais e centros de saúde.
No que respeita a veículos de bombeiros, geralmente veículos pesados com autotanque, devido ao peso e aos equipamentos que transportam, o condutor praticamente tem que parar para transpor a lomba, sob pena de danificar o equipamento devido ao embate e “salto” dos rodados traseiros (o designado efeito de
“bottoming out”).

Assim só por acaso, não terá ocorrido a quem decidiu implementar estas lombas que o cruzamento da ecopista na Av. Engenheiro Adelino Amaro da Costa (pode ser qualquer outro, dado que todos eles possuem lombas) é a principal via de acesso das autoridades policiais e dos bombeiros em caso de incêndio ou acidente às freguesias de Lobão da Beira, Canas de Santa Maria, Lageosa e outras?

Nunca ocorreu a ideia de que ali até se poderia ter construído um túnel?

O mais curioso é a forma como o condutor "tuga" se adapta aos obstáculos que lhe são colocados, espécie de jogo do "gato e do rato"!
Por exemplo, neste local (junto à paragem da estação de Tondela), já presenciei mais do que uma vez, condutores que circulam no sentido Tondela-Lobão da Beira, depois de transpor a primeira lomba, viram à direita pelo que resta da "antiga" estrada, só para evitarem transpor a segunda lomba.
Noutras lombas que não ocupam toda a largura da estrada, os condutores optam por encostar tudo à direita da faixa de rodagem e desta forma praticamente evitam ter de transpor a lomba.

E o que torna estas lombas construídas ao longo da ecopista ilegais?
Como já referi acima, o primeiro motivo é porque a instalação de lombas não tem qualquer regulamentação legal para a sua colocação e o Código da Estrada é omisso relativamente ao assunto.
Depois, basta ler a nota técnica da ANSR e constatamos:
4.1.4 – Não é admissível a instalação de uma LRV em local em que se verifique qualquer das seguintes condições:
a) Quando a velocidade máxima permitida for superior a 50 km/h;
b) Em trecho de via considerado estratégico pelo Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) ou Administração Regional de Saúde;
c) Sem que a entidade gestora da via consulte previamente a entidade incumbida da fiscalização do código da estrada na via em questão, bem como eventuais operadores de serviços regulares de transporte colectivo de passageiros que utilizem a via;
d) Dentro dos limites de uma passagem de nível ou a menos de 20 m de distância de qualquer ponto da mesma;
e) Por baixo, ou a menos de 25 m de distância de qualquer ponto de uma estrutura existente sobre a via, que tenha qualquer elemento a uma altura inferior a 6 metros acima da superfície do pavimento da via;
f) Em cima ou a uma distância inferior a 25 metros de qualquer elemento da estrutura:
a. De uma ponte ou viaduto que a via atravesse;
b. De um túnel que passe por baixo da via;
g) Em vias sem passeios ou noutras situações em que seja possível ao condutor adoptar uma trajectória que contorne a LRV;
h) Em locais sem iluminação pública, constituída no mínimo por três candeeiros com espaçamento entre eles não superior a 40 m ou por dispositivo destinado especialmente à iluminação da LRV. Esta exigência
não se aplica se a velocidade máxima permitida no local for de 30 km/h ou inferior;
i) A uma distância inferior a 30 m ou superior a 150m de uma passagem de peões;
j) A uma distância inferior a 10 m da linha imaginária que delimita a zona de intersecção de um cruzamento ou entroncamento na via em que se pretende instalar a LRV, para salvaguardar a estabilidade dos veículos de 2 rodas;
k) Em trechos de via em que a inclinação é igual ou superior a 10%, de forma a evitar que a parte inferior dos veículos pesados colida com a superfície do pavimento da LRV;

No mínimo as alíneas abaixo estão a ser violadas:
b) [visto acima];
g) [dado que algumas lombas são contornadas pelos automobilistas, precisamente porque não existe passeio];
h)
i) [se entre as duas lombas em cada cruzamento está prevista a colocação duma passadeira, dificilmente a distância é superior a 30m]

Sinalização deficiente e insuficiente
A sinalização existente em todas as lombas ao longo da ecopista é insuficiente ou deficiente. É insuficiente porque os sinais que existem para alertar os condutores do perigo da existência de lombas estão colocados apenas a 50m de distância, o que por vezes acontece é um condutor mais distraído, quando se apercebe já está a "bater" e a ultrapassá-las a alta velocidade, sujeitando-se a ter um acidente e danos graves no veículo.


Deveriam existir nos locais mais movimentados marcas rodoviárias "M20 - Bandas cromáticas" que alertassem para necessidade de praticar velocidades mais reduzidas, assim como mais sinais de perigo "A2a - Lomba" colocados com mais antecedência, por exemplo a 300m.


A sua colocação em cima de curvas é algo que também não facilita a vida aos condutores. Quem circula na EN2, na Av. dos Emigrantes em direcção a Canas de Santa Maria e no local da foto acima pretende virar à sua direita, dificilmente consegue avistar a sinalética de "perigo de lomba" que ali se encontra e então se for de noite, pior!

Mais ainda havia para alertar e criticar sobre a ecopista e sua sinalização, mas vou deixar para mais tarde... quando esta estiver dada como concluída.

Mandar colocar lombas não requer grande inteligência e sinceramente não consigo compreender é que apesar deste ser um assunto tão sério que nos afecta a todos, continue sem legislação e apenas com uma "nota técnica" que dá liberdade a quem as instala de cometer erros como podemos ver ao longo desta mensagem.

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